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PEDRO GANDRA EM ENTREVISTA COM DESIGN DÉSIR

 

 

Pedro Gandra

Pedro Gandra nasceu no Rio de Janeiro, filho de um produtor musical e de uma directora, actualmente aposentada, do Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Durante a adolescência, por volta dos 12 ou 13 anos, uma prolongada greve de professores do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, levou a sua mãe a inscrevê-lo, a pedido do próprio, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Não era exactamente o ambiente habitual para alguém da sua idade, mas, com alguma insistência, Pedro conseguiu matricular-se e frequentar as aulas.

Aí conheceu artistas de várias gerações, explorou diferentes linguagens, como o vídeo e o desenho, frequentou ateliers de artistas e familiarizou-se com processos, suportes e técnicas. Desenvolveu uma forte cultura de atelier, que o levou, por diversas vezes, a desfazer, refazer, recortar ou mesmo eliminar trabalhos já concluídos e apresentados ao público - incluindo galeristas, curadores e coleccionadores - por considerar que ainda não estavam verdadeiramente terminados ou não correspondiam às suas expectativas sobre o que entende ser a prática artística.

Foi pouco depois desse período no Parque Lage que Pedro passou a integrar activamente a cena das artes visuais de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Por volta dos 14 anos, pintava os tapumes de uma galeria em obras. Pouco tempo depois, começou a comercializar as suas primeiras telas e a participar em exposições colectivas de jovens artistas, tanto em galerias comerciais como em instituições públicas.

Em 2017, já depois da sua formação no Parque Lage, lançou o seu primeiro projecto de investigação sobre a produção de artistas contemporâneos, através de uma exposição realizada no Museu Correios de Brasília. Intitulada “Fronteiras da Pintura – Fronteiras da Ilusão”, a mostra reuniu nomes como André Santangelo, Elyeser Szturm, Evandro Soares, Fernando Madeira, Gabi Cravo e Canela, Helô Sanvoy, Hermano Luz Rodrigues, Talles Lopes, TresPe Coletivo e Ursula Tautz.

O desejo de conhecer mais profundamente os processos e modos de produção dos artistas levou-o a repetir a experiência em “A Construção de Minimundos”, em 2021, na Referência Galeria de Arte, reunindo trabalhos de Ana Júlia Vilela, Annima de Mattos, Gisele Camargo, Joaquim Paiva, Léo Tavares, Pedro Lacerda, Raquel Nava e Vânia Mignone.

Nestas duas experiências, para além de apresentar os seus próprios trabalhos, Pedro assumiu diferentes papéis: na primeira exposição, como artista e organizador; na segunda, como artista e curador. Foi apenas em 2019 que apresentou a sua primeira exposição individual de pintura.

Apesar de ter dedicado mais de uma década à pintura, foi em 2023 que Pedro passou a assumir-se publicamente como pintor. A partir daí, iniciou a preparação de um novo projecto centrado nas questões da pintura.

Sem se prender a papéis pré-definidos, assumiu também a co-curadoria do projecto “Ciclo de Pintura”, em parceria com Gisel Carriconde Azevedo, com exposições realizadas na DeCurators ao longo de 2024.

Pedro possui interesses múltiplos, que vão da literatura à fotografia, passando pelo cinema e pela moda. Todos eles se materializam em óleo, acrílico e carvão sobre tela. Pelo menos, por enquanto.

 

 

 

 

 

Design Désir- Pedro, quando começou a tua paixão pela arte?

Pedro Gandra- Desde muito cedo soube que queria criar ficções, embora nessa altura, não conseguisse ainda organizar esse pensamento. Havia em mim uma curiosidade em imaginar situações que se expadissem para além das minhas vivências quotidianas.

Também desde cedo, comecei a nteressar me e a querer compreentender os procedimentos técnicos de algumas práticas artísticas. Creio que estes dois fatores me levaram precocemente a procurar uma escola de artes. A partir daí, comecei a desenvolver uma espécie de percepção do mundo através dessa lente: a da curiosidade e da descoberta. 

 

 

Design Désir- Como te defines enquanto artista e como defines a tua arte?

Pedro Gandra- Comecei a exibir os meus trabalhos através da pintura e foi sempre à pintura que me dediquei no atelier. No entanto existiu sempre um misto de insegurança e de liberdade por não me apresentar ou me classificar como pintor.  Só muito recentemente surgiu uma vontade de ultrapassar esse receio e ocupar esse lugar, o de pintor. 

Essa autorreflexão resulta também das experiências de ter sido convidado para residências artísticas dedicadas à pintura, como a residência de dois anos que decorre actualmente na deCurators. Isso dá-me a oportunidade de conviver com artistas que refletem sobre questões relacionadas com a pintura e de desenvolver investigação em torno desse tema.

O projeto reúne quatro exposições temáticas que me permitem exercitar o pensamento expositivo curatorial, ao mesmo tempo que permaneço no atelier a lidar com os desafios da minha investigação e ser influenciado por todas essas reverberações.

Tenho-me dedicado à pintura figurativa, utilizando-a para apresentar narrativas sintéticas. Cada vez mais visualizo o trabalho de forma instalativa, o que me tem conduzido a outras soluções expositivas, nas quais me parece indissociável a execução da obra e a forma como ela será apresentada.

 

 

Design Désir- Qual é a tua maior inspiração e o que te motiva a criar?

Pedro Gandra- Como referi anteriormente, criar ficções é um dos meus principais motores - utilizar a linguagem da pintura para desenvolver fragmentos narrativos, faíscas de histórias, reminiscências de personagens.

Mas, cada vez mais, interessa-me também trabalhar com os materiais, observar como a cor reage, compreender o tempo da pintura - que nem sempre corresponde às expectativas do artista - e lidar com o imprevisto.

Exercer este ofício é igualmente estabelecer um diálogo com o mundo e com tudo aquilo que nos impacta no trabalho de outros artistas. É quase como se estivesse num fluxo contínuo, respondendo a todos os estímulos que essas obras me provocam através do meu próprio trabalho.

Há pouco tempo, estava a ler uma entrevista de uma compositora que acompanho e, quando lhe perguntaram como definiria o seu trabalho, respondeu: «Sentir, simplesmente sentir.» Isso tocou-me de forma muito intensa. Nada me parece mais assustador do que sentir. E talvez essa seja também uma das funções primordiais do artista: sentir. E, de alguma forma, transformar esses sentimentos em algo que ultrapasse a esfera íntima.

 

 

Design Désir- Quanto tempo demoras a produzir uma obra?

Pedro Gandra- Varia muito. Geralmente trabalho em várias pinturas em simultâneo no atelier, o que me ajuda a desenvolver uma compreensão mais ampla do meu trabalho.

Durante a preparação de exposições, posso chegar a ter quinze pinturas em curso. No entanto, isso não significa que fiquem concluídas ao mesmo tempo ou que se destinem ao projecto mais próximo. A selecção do que o artista produz é uma parte crucial do trabalho em atelier.

Actualmente, estou a trabalhar em duas pinturas para uma exposição e tento concluí-las desde 2018. Já pensei incluí-las em algumas exposições ao longo desse período, mas nunca me pareceu ser o momento certo. Agora, parece finalmente ter chegado o seu tempo.

 

 

 

Design Désir- Como é a tua rotina diária?

Pedro Gandra- Neste momento, estou completamente dedicado ao atelier. Passo lá o máximo de tempo possível. Se quero ler, leio no atelier. Só não respondo a e-mails nem a mensagens a partir de lá; o telemóvel não entra.

Procuro manter-me fisicamente presente o máximo de tempo possível. Mas nem sempre é assim. Existem períodos em que o foco se dirige mais para a investigação ou para outras áreas, e menos para a execução. É uma negociação constante, mas o atelier continua a ser a prioridade.

 

Design Désir- Quais são os teus objetivos de carreira para o futuro?

Pedro Gandra-

Pedro Gandra – O meu principal objectivo é manter-me sempre focado. Vou criando desafios para que, todos os dias, este ofício continue a oferecer novas possibilidades.

Creio que esse é o objectivo mais importante, aquele ao qual devo dedicar a minha atenção: a relação que mantenho com o meu próprio ofício.