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MANSÃO DOS ARCOS: ARQUITETURA, VISÃO E MEMÓRIA EM BRASÍLIA
Residência Nivaldo Borges | 1972–1978
Situada no setor de Mansões Park Way, entre a geometria precisa do modernismo e a paisagem aberta do Cerrado, encontra-se uma das residências mais singulares de Brasília: a Mansão dos Arcos.
Projetada pelo arquiteto João Filgueiras Lima, conhecido por Lelé, a casa distingue-se pelos seus imponentes arcos e abóbadas de tijolo, cuja tonalidade alaranjada contrasta com o verde da paisagem envolvente. Uma arquitetura de proporções surpreendentes, onde a ousadia estrutural convive com uma ideia muito particular de vida familiar.
Foi neste espaço grandioso, onde a arquitetura e a memória familiar se entrelaçam, que fui generosamente acolhida por Nivaldo Júnior, Alice Maria e Lucas, representantes da segunda geração da família — os dois primeiros, filhos de Nivaldo Fonseca Borges, primeiro proprietário e guardião desta casa, e o terceiro, seu sobrinho.
Entre projetos de arquitetura, livros e recordações, a conversa desenrolou-se de forma espontânea, tendo como cenário a própria casa. Ao longo dessa visita, fui descobrindo não apenas os detalhes da sua construção, mas também os episódios familiares, os momentos e as pequenas histórias que fizeram parte da vida naquele lugar.
A arquitetura que até então conhecia sobretudo pela sua dimensão e singularidade ganhava, através daqueles testemunhos, uma dimensão muito mais íntima.
Uma história que começa antes da casa
Para compreender a Mansão dos Arcos, é preciso começar por conhecer o homem que a imaginou.
Nivaldo Fonseca Borges mudou-se de Pernambuco para Brasília nos anos 1960 com a sua mulher, Helma Esteves Fonseca, com quem constituiu uma família numerosa, de oito filhos.
Licenciado em Direito e funcionário público, Nivaldo tinha interesses que iam muito além da sua atividade profissional. A arquitetura, o cinema, os automóveis e a inovação ocupavam um lugar importante na sua vida, revelando uma personalidade curiosa e aberta a novas ideias.
Inicialmente, não dispunha dos recursos financeiros necessários para concretizar um projeto desta dimensão. A oportunidade surgiu com a venda de outra propriedade, que lhe permitiu finalmente dar forma à residência que idealizava.
O que pretendia construir não era apenas uma casa suficientemente grande para acolher a família. Nivaldo queria um espaço onde fosse possível viver, receber amigos, organizar encontros e cultivar as suas paixões.
Foi a partir deste desejo que nasceu o projeto da Mansão dos Arcos, concebido e oferecido pelo arquiteto Lelé, com quem Nivaldo mantinha uma profunda relação de amizade, marcada pela estima e por afinidades pessoais.
Deste encontro nasceu uma casa que dificilmente poderia ter sido concebida da mesma forma sem a personalidade de ambos.
Na Mansão dos Arcos, tudo começa com a estrutura
Fiel à sua abordagem, Lelé concebeu a residência a partir de um sistema de grandes arcos de tijolo, que não só sustentam a construção, como determinam a organização dos espaços e a imagem do edifício.
A execução do primeiro arco foi, por si só, um momento decisivo da obra.
Segundo o relato da família, coube a Tião, um mestre de obras espanhol, demonstrar no próprio local a viabilidade da solução construtiva. Os tijolos eram colocados progressivamente a partir das extremidades, até ao assentamento da peça central que completava o arco.
A construção exigia precisão, experiência e confiança numa técnica que, pela sua escala, estava longe de ser convencional.
Mas a obra não foi apenas um desafio para os profissionais envolvidos. Para a família Borges, construir a casa tornou-se também uma experiência partilhada.
«Toda a família participou na construção da casa», recorda Nivaldo Júnior. Tinha apenas 13 anos quando, aos fins de semana, ajudava a fabricar e a assentar as peças de betão que compunham o pavimento, chegando a colocar cerca de dez por dia. Enquanto isso, outros membros da família dedicavam-se a diferentes tarefas, cabendo às mulheres, entre outras atividades, a plantação da relva nos espaços exteriores.
Este é talvez um dos aspetos mais surpreendentes da história: uma residência de tal dimensão, concebida por um dos grandes nomes da arquitetura brasileira, contou também com o trabalho dos seus futuros habitantes.
A obra prolongou-se por seis anos. Durante esse tempo, a casa foi crescendo ao mesmo ritmo que as memórias da família, muito antes de estar concluída.
Por dentro da Mansão dos Arcos
A entrada na residência está longe de anunciar imediatamente a dimensão do espaço que se encontra no interior.
Uma porta discreta conduz a um espelho de água que acompanha o percurso de entrada. Pouco depois, a escala da arquitetura revela-se: os arcos sucedem-se, o pé-direito eleva-se e a luz natural percorre os grandes espaços interiores.
O eixo central, com quase oito metros de pé-direito, constitui um dos elementos mais impressionantes da casa. A sua altura, aliada à continuidade dos arcos e à ventilação natural, cria um ambiente amplo e arejado, pensado para responder também ao clima de Brasília.
A disposição dos espaços é relativamente simples de compreender, apesar das dimensões invulgares da residência.
O grande corredor central, iluminado por uma claraboia, organiza duas alas distintas. Numa delas encontram-se sete suítes destinadas à família. Na outra, concentram-se os espaços de serviço e de apoio à vida doméstica: sala de costura, lavandaria, sala de refeições quotidianas com pequena adega, despensa, cozinha, dois quartos destinados ao pessoal e duas casas de banho exteriores.
Entre as áreas mais reservadas e os espaços de uso comum, um jardim interior introduz uma pausa na arquitetura e oferece um lugar de convívio, onde a família se reunia e partilhava momentos do quotidiano.
A escala do corredor e a altura das abóbadas fazem lembrar, por momentos, o interior de uma catedral. No entanto, os espaços que se distribuem ao seu redor revelam uma organização inteiramente dedicada às necessidades de uma casa de família.
Com cerca de 2.500 m² de área construída, implantada num terreno de aproximadamente 30.000 m², a residência ocupa apenas uma parte da vasta propriedade.
Em vez de delimitar o terreno através de muros altos, Lelé optou por barreiras discretas, abaixo da linha de visão, permitindo que o olhar percorra livremente a paisagem.
Os grandes envidraçados reforçam essa relação com o exterior, enquanto o verde envolvente se torna uma presença constante nos espaços interiores.
É difícil não ficar impressionado com a dimensão da Mansão dos Arcos. Mas o que mais me surpreendeu, depois de ouvir as histórias da família, foi perceber como uma residência tão monumental tinha sido vivida de forma tão natural.
Uma casa feita para receber
A Mansão dos Arcos foi pensada para uma família numerosa, mas a sua história está igualmente ligada às muitas pessoas que passaram por ela.
Durante as décadas de 1970 e 1980, a residência tornou-se palco de uma intensa vida social, reunindo personalidades dos meios político, diplomático e cultural de Brasília.
Nivaldo gostava de receber e cultivava uma vasta rede de relações pessoais. Os encontros e as reuniões faziam parte do quotidiano da casa, que rapidamente se tornou um lugar de convívio para além do círculo familiar.
Uma das expressões mais curiosas dessa vida social encontrava-se num edifício anexo à residência: a sala de cinema privada.
O cinema era uma das grandes paixões de Nivaldo, e a possibilidade de assistir a filmes em casa, acompanhado por familiares e amigos, fazia parte do projeto desde a sua concepção.
A sala, atualmente equipada com 72 lugares, recebia sessões aos fins de semana. Segundo as recordações da família, alguns filmes eram exibidos antes de chegarem ao circuito comercial, já adaptados para o público brasileiro.
Imaginar estas sessões, com os convidados reunidos numa sala de cinema privada em plena Brasília dos anos 1970, ajuda a compreender a singularidade da vida que ali se desenrolava.
No mesmo edifício existiam ainda uma sala de jogos, voltada para a piscina, e uma oficina onde Nivaldo podia dedicar-se ao seu interesse pelo universo automóvel.
No exterior, a piscina oval, revestida em tons azul-esverdeados, introduz linhas curvas na paisagem e estabelece um diálogo com as formas da própria arquitetura.
Uma sauna, atualmente desativada, e uma sala de máquinas completavam as instalações de lazer. O acesso fazia-se através de escadas discretamente integradas no relvado, que conduziam ao nível subterrâneo.
A casa reunia, assim, espaços muito diferentes entre si, todos relacionados com os interesses de Nivaldo e com a forma como desejava viver. O cinema, os automóveis, os encontros sociais e a vida familiar não eram atividades secundárias: estavam presentes na própria concepção da residência.
Uma nova vida para a Mansão dos Arcos
Depois de décadas ligadas à vida privada da família, a Mansão dos Arcos iniciou, em 2014, uma nova etapa, passando a ser utilizada como espaço para eventos.
A mudança exigiu algumas adaptações funcionais, procurando preservar as características essenciais da arquitetura original.
Foram acrescentadas casas de banho e ampliada a área de apoio à cozinha, de modo a responder às necessidades da nova utilização.
Entre as intervenções mais significativas esteve a remoção de um antigo jardim suspenso que já não cumpria a sua função original. Segundo a família, a operação exigiu a retirada de um volume considerável de areia, transportado em cerca de 50 camiões.
As estruturas originais das janelas foram também substituídas por soluções mais recentes, mantendo-se a intenção de respeitar a linguagem arquitetónica da residência.
Apesar das alterações, os elementos que definem a identidade da casa continuam presentes: os arcos de tijolo, a organização dos espaços, a luz natural e a relação direta com a paisagem.
É curioso pensar que uma casa concebida para reunir familiares e amigos tenha encontrado, décadas mais tarde, uma nova utilização precisamente ligada ao encontro entre pessoas.
Uma arquitetura que guarda histórias
A Mansão dos Arcos ocupa um lugar particular na arquitetura residencial de Brasília. Não apenas pela dimensão ou pela originalidade do projeto de Lelé, mas também pelas circunstâncias que estiveram na sua origem.
Foi concebida a partir dos interesses de um homem, desenhada por um amigo próximo e construída ao longo de seis anos, com a participação da própria família.
Ao longo da visita, as histórias contadas por Nivaldo Júnior, Alice Maria e Lucas permitiram-me olhar para a casa de outra forma. Os espaços deixaram de ser apenas elementos de um projeto arquitetónico para se tornarem lugares associados a pessoas, acontecimentos e recordações concretas.
A oficina, o cinema, o jardim interior ou as peças de cimento colocadas por um rapaz de 13 anos passaram a ter um significado que nenhuma planta de arquitetura poderia revelar por si só.
É essa dimensão humana que torna a Mansão dos Arcos especialmente fascinante. A obra de Lelé permanece, mas com ela permanecem também as histórias de uma família que participou na sua construção e lhe deu vida durante décadas.
E foi precisamente essa outra face da casa que tive o privilégio de conhecer.
Texto e visita: Design Désir
Com os testemunhos de Nivaldo Júnior, Alice Maria e Lucas.